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Idioma: PT

Pão

Panetone: o que define a massa e a receita de dois dias que funciona em casa

Por Marco FreireAtualizado 2026-07-30

O panetone que a maioria conhece vem de saquinho e dura meses na prateleira. O clássico milanês é outra coisa: massa viva de lievito madre, dois dias de trabalho e uma cúpula que só se sustenta se esfriar de cabeça para baixo.

Panetone cortado ao meio sobre tábua de madeira, mostrando a cúpula alta rachada e o miolo amarelo em fios com passas e frutas cristalizadas

De relance

Origem
Milão, Lombardia, Itália
Criado em
não aferido
Hidratação
de 40% a 48%
Farinha
farinha de força (tipo 0 / Manitoba) · W de 350 a 400
Fermento
lievito madre
Tempo total
de 36 h a 72 h
Forno
160 °C
Vapor
não
Temperatura interna
de 92 °C a 94 °C
Formato
cúpula alta em pirottino de papel
Dificuldade

A receita

Rende1 panetone de cerca de 1 kg
Mão na massa90 min
Tempo total48 h

Ingredientes

 Quantidade% do padeiro
Farinha de força (W 350 a 400)300 g100%
Lievito madre (massa madre sólida)90 g30%
Água135 g45%
Açúcar150 g50%
Gemas150 g50%
Manteiga em pomada170 g57%
Mel de acácia15 g5%
Fava de baunilha3 g1%
Sal4 g1.3%
Uvas passas150 g50%
Frutas cristalizadas (laranja e cedro)100 g33%

Modo de fazer

  1. Refresque o lievito madre três vezes no mesmo dia, de três em três horas, com a mesma farinha da receita. Ele está pronto quando triplica de volume em cerca de quatro horas e cheira a iogurte doce.
  2. À noite, faça o primo impasto: misture a farinha, o lievito madre, o açúcar e a água, e sove até formar glúten. Junte as gemas aos poucos e, por fim, a manteiga em pomada, esperando cada adição sumir. Sove até o ponto de véu.
  3. Deixe o primo impasto triplicar de volume por 10 a 12 horas a 26 °C, coberto.
  4. No dia seguinte, junte ao primo impasto a farinha restante e sove até recuperar o glúten. Acrescente o açúcar, as gemas, a emulsão de mel, baunilha e raspas, e a manteiga em pomada aos poucos, sempre esperando incorporar. Por último, o sal.
  5. Incorpore as passas e as frutas cristalizadas à mão, com delicadeza, só até se distribuírem. Não sove depois disso.
  6. Deixe a massa descansar 30 a 60 minutos, depois faça a pirlatura numa bancada com pouca manteiga, girando a massa até formar uma bola lisa e tensa.
  7. Coloque no pirottino e deixe crescer 6 a 8 horas a 26 a 28 °C, até a massa chegar a 2 cm da borda.
  8. Faça a scarpatura: corte uma cruz na superfície, levante as pontas, ponha um cubo de manteiga no centro e feche. Asse a 160 °C por 50 a 55 minutos (fôrma de 1 kg), até o centro marcar 92 a 94 °C.
  9. Ao sair do forno, espete dois espetos na base, vire de cabeça para baixo e deixe esfriar assim por 8 a 12 horas antes de embalar.

A farinha certa

Aqui não há meio-termo: o panetone pede farinha de força, com W entre 350 e 400. É o território da Manitoba, e não é capricho. A massa carrega mais gordura e açúcar que o próprio peso em farinha, gemas que amolecem o glúten e uma fermentação que passa de doze horas. Uma farinha comum, de W 220, cede no caminho: o glúten se rompe e a massa desanda. O W alto dá a rede elástica capaz de segurar tanta gordura e tanto gás por tanto tempo. Procure a força no rótulo ou a proteína acima de 13 g por 100 g.

A história

O panetone é milanês, e é antigo. Na Lombardia medieval já se assava um pão enriquecido para as festas, com mel e uvas passas. O registro mais antigo e seguro de pani grossi feitos com manteiga, passas e especiarias está num livro de contas do Collegio Borromeo, em Pavia, de 1599, e por volta do século XVIII o pane grande já era conhecido.

A cúpula alta é mais nova. Nos anos 1920, Angelo Motta passou a fermentar a massa dentro de uma fôrma de papel, o pirottino, e a deixou crescer para cima. Foi essa mudança que deu ao panetone o formato de domo. Em 2005, um decreto italiano fixou o que pode levar o nome: fermentação natural de massa madre, no mínimo 16% de manteiga, 4% de gemas e 20% entre passas e frutas cristalizadas. O que enche a prateleira no Natal brasileiro é outro produto, industrial e de fermento rápido.

O que define

O panetone certo se reconhece antes de cortar. A cúpula racha em cima numa cruz aberta, a scarpatura, e solta um perfume de manteiga, baunilha e casca de laranja. Ao rasgar, o miolo vem em fios: filamentos longos e amarelos de gema que se soltam em vez de esfarelar, cheios de alvéolos irregulares. É macio, úmido e elástico, nunca seco. Se o seu esfarela como bolo, faltou lievito madre forte ou sobrou fermento rápido.

Como a massa se comporta

O panetone é um projeto de dois a três dias, e não há atalho honesto. Antes de tudo vem o lievito madre, uma massa madre sólida que precisa de três rinfreschos no mesmo dia, de três em três horas, para acordar e ficar doce. Sem madre em ponto, a massa não levanta.

O primo impasto é feito à noite: farinha, madre, açúcar, água, gemas e manteiga, sovado até o ponto de véu e deixado triplicar por doze horas perto de 26 °C. No dia seguinte vem o secondo impasto, com o resto, a emulsão de mel, baunilha e raspas, e por último as passas e as cristalizadas. Depois vem a pirlatura: com pouca manteiga na bancada, gira-se a massa até formar uma bola tensa e lisa, que vai ao pirottino e cresce mais sete a oito horas.

Variações

O clássico milanês leva passas e cristalizadas, mas a família é grande. O panettone basso, mais achatado e de crosta amendoada, é típico do Piemonte. Há versões só com gotas de chocolate, com creme, e o pandoro veronês, que é o primo sem frutas. Em casa, o maior ajuste é o forno: sem a potência de um forno profissional, asse a 160 °C e proteja a cúpula com papel-alumínio se dourar rápido demais.

Onde se erra

O erro que mais arruína panetone é a madre fraca. Se ela não triplica sozinha em quatro horas, não vai erguer uma massa tão pesada. O segundo é a manteiga entrar quente ou rápido demais no secondo impasto: a emulsão desanda, a massa fica oleosa e o glúten se rompe. O terceiro é assar sem termômetro: mire 92 a 94 °C no centro, não no relógio. E o mais cruel, deixar esfriar em pé. Recém-saído do forno o panetone não sustenta o próprio peso e murcha. Ele precisa esfriar de cabeça para baixo, espetado na base, por várias horas.

Perguntas frequentes

Dá para fazer panetone sem lievito madre?
Dá para fazer um pão doce parecido com fermento comercial, mas não é panetone. A massa madre sólida é o que dá o miolo em fios, a conservação de semanas e o aroma ácido característico. Sem ela, você tem um bom pão de Natal, que resseca em poucos dias.
Por que o meu panetone murcha ao esfriar?
Quase sempre é falta do resfriamento invertido. Recém-assado, o miolo está quente e não segura o próprio peso. Espete dois espetos na base, vire de cabeça para baixo e deixe assim por seis a doze horas antes de embalar.
Qual a diferença para o panetone de supermercado?
O industrial usa massa acelerada, fermento rápido e gordura vegetal, e é feito para durar meses. O clássico milanês nasce de lievito madre, dois impastos e no mínimo 16% de manteiga e 20% de frutas, como manda o decreto italiano de 2005.
Posso usar fermento biológico em vez de madre?
Pode, e existem receitas boas assim, mas o resultado é outro produto: cresce mais rápido, tem sabor mais neutro e resseca antes. Para o miolo filante e a durabilidade do clássico, a madre é insubstituível.

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