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Idioma: PT

Pão

Pandoro: a história, a técnica e a receita que funciona em casa

Por Marco FreireAtualizado 2026-07-30

O pandoro é o bolo de Natal de Verona: uma estrela de oito pontas, dourada de manteiga e gema, leve como nuvem. Parece simples, mas é um dos doces mais difíceis que existem.

Pandoro dourado em forma de estrela de oito pontas polvilhado com açúcar de confeiteiro, uma fatia cortada mostrando o miolo amarelo, fofo e cheio de fios

De relance

Origem
Verona, Vêneto, Itália
Criado em
1894, Domenico Melegatti
Hidratação
não aferido
Farinha
manitoba · W de 350 a 400
Fermento
lievito madre
Tempo total
de 36 h a 60 h
Forno
160 °C
Vapor
não
Temperatura interna
de 93 °C a 96 °C
Formato
estrela de oito pontas
Dificuldade

A receita

Rende1 pandoro de 1 kg
Mão na massa120 min
Tempo total48 h

Ingredientes

 Quantidade% do padeiro
Farinha manitoba (W 350 a 400)500 g100%
Lievito madre (massa mãe firme e ativa)150 g30%
Gemas180 g36%
Açúcar160 g32%
Manteiga (massa)150 g30%
Manteiga (sfogliatura)100 g20%
Ovo inteiro50 g10%
Água80 g16%
Manteiga de cacau (opcional)15 g3%
Baunilha (fava)4 g
Mel15 g3%
Sal5 g1%

Modo de fazer

  1. Dois dias antes, fortaleça o lievito madre com refrescos diários até ele triplicar sozinho em três a quatro horas a 28 °C. Sem uma massa mãe forte, o pandoro não levanta o peso de manteiga e gema que vem pela frente.
  2. Na noite anterior, faça o primeiro impasto: dissolva o açúcar em parte da água, junte metade das gemas, o lievito madre e cerca de 70% da farinha. Sove até uma massa lisa e elástica, então incorpore os 150 g de manteiga da massa aos poucos, até ficar brilhante e soltar da tigela.
  3. Cubra e deixe fermentar 10 a 12 horas a 26 a 28 °C, até triplicar de volume. É essa fermentação longa que dá o perfume e a leveza.
  4. De manhã, no segundo impasto, junte à massa triplicada o resto da farinha e sove até ganhar força. Acrescente em etapas o mel, o resto das gemas, o ovo inteiro, a baunilha e o sal, e só então a manteiga de cacau derretida e a manteiga em pomada, sempre mantendo a massa abaixo de 26 °C, até passar no teste da membrana.
  5. Descanse a massa coberta na geladeira por 30 a 40 minutos. Ela vai firmar o suficiente para a sfogliatura.
  6. Abra a massa num retângulo, ponha no centro a placa de manteiga fria da sfogliatura e dobre como um livro. Abra e dobre três vezes, descansando 20 minutos na geladeira entre cada volta. São essas camadas que dão o miolo em fios.
  7. Boleie a massa, ponha com a emenda para baixo numa forma de estrela de 1 kg bem untada de manteiga e deixe crescer 8 a 10 horas a 26 a 28 °C, até a cúpula chegar perto da borda.
  8. Asse a 170 °C nos primeiros 10 minutos, baixe para 160 °C e siga por mais 35 a 45 minutos, até o centro marcar 93 a 96 °C. Se a superfície dourar demais, cubra com papel-alumínio. Esfrie de cabeça para baixo dentro da forma por pelo menos 2 horas antes de desenformar, e sirva no dia seguinte, com açúcar de confeiteiro por cima.

A farinha certa

O pandoro é o teste final de uma farinha. Ele leva quase o próprio peso em manteiga, gema e açúcar, e mesmo assim a rede de glúten precisa segurar tudo isso e ainda crescer três vezes no forno. Para isso você precisa de uma farinha de grande força: a manitoba, com W entre 350 e 400 e proteína perto de 14% a 15%. Veja a nossa ficha da manitoba em /farinhas/manitoba/, que já lista o panettone e o pandoro como o destino natural dela.

O W alto importa porque a fermentação é longa, de dois a três dias, e uma farinha fraca se desmancharia muito antes do fim. Mas força sozinha não basta: a massa também precisa de extensibilidade, a capacidade de esticar sem rasgar. Sem isso, a sfogliatura quebra e a manteiga escapa em vez de virar camadas. É esse equilíbrio, muita força com boa elasticidade, que faz da manitoba a farinha dos grandes lievitados.

A história

O pandoro é jovem para um doce tão tradicional. A certidão de nascimento tem data: 14 de outubro de 1894, quando Domenico Melegatti, confeiteiro de Verona, registrou a patente do nome, da forma e do processo. (A Wikipédia em inglês dá 30 de outubro; as fontes italianas e a própria Melegatti ficam com o dia 14.)

Mas a raiz é bem mais antiga. Verona já fazia o nadalin, um bolo de Natal denso e baixo, coberto de açúcar, pinhões e amêndoas, documentado desde o século 13, no tempo dos Della Scala. Melegatti pegou aquele bolo pesado e o aliviou: tirou a cobertura, acrescentou manteiga e gema, e deixou a massa crescer para cima, alta e fofa.

O nome vem do brilho. Diz a lenda que alguém, vendo uma fatia iluminada pelo sol, exclamou pan de oro, pão de ouro, pela cor que a gema e a manteiga davam ao miolo. A forma de estrela de oito pontas foi desenhada pelo pintor impressionista Angelo Dall'Oca Bianca: um tronco de cone de seção octogonal que, visto de cima, vira uma estrela.

O que define

O que define o pandoro é a leveza que não deveria ser possível. Ele leva quase o próprio peso em manteiga e gema, ingredientes que normalmente pesam qualquer massa, e mesmo assim sai leve, com um miolo amarelo cheio de fios que se desfazem na mão.

Esse miolo em fios é a assinatura. Ele vem da sfogliatura, o mesmo gesto do croissant: a manteiga é laminada em camadas dentro da massa, e no forno cada camada vira uma folha finíssima. Corte um pandoro bom e ele não esfarela em migalhas, ele se abre em tiras.

O segundo traço é o perfume. Baunilha de verdade, manteiga e a fermentação longa do lievito madre dão um aroma que nenhum atalho industrial alcança. E há a forma: sem a estrela de oito pontas, com o açúcar de confeiteiro nevando por cima, não é pandoro, é só um bolo alto.

Como a massa se comporta

O pandoro é da família dos grandi lievitati, os grandes fermentados italianos, junto com o panettone. Isso quer dizer três coisas que assustam quem vem do pão comum: fermento natural obrigatório, vários impastos e uma paciência de dois a três dias.

Tudo começa no lievito madre, a massa mãe. Ela precisa estar forte, capaz de triplicar em três ou quatro horas, senão a massa pesada de manteiga nunca sobe. O primeiro impasto é feito à noite e fermenta a noite inteira até triplicar. No dia seguinte, o segundo impasto acrescenta o resto da farinha, o açúcar, as gemas e, por último, a manteiga em pomada, sempre mantendo a massa abaixo de 26 °C para não derreter a gordura.

Depois vem a sfogliatura: a massa é aberta, recebe uma placa de manteiga fria e é dobrada como um livro, três vezes, com descanso na geladeira entre cada volta. Só então ela vai para a forma untada, onde cresce mais oito a dez horas até a cúpula chegar na borda. É um projeto, não uma receita de domingo.

Variações

A variação mais famosa não é da massa, é do recheio. Muita gente corta o pandoro em fatias horizontais, passa um creme de mascarpone entre elas e remonta a árvore, para uma sobremesa de festa. Creme de chantili, nutella ou zabaione também aparecem.

Na massa, a divisão de verdade é entre pandoro e panettone: mesma família, técnica parecida, mas o panettone leva frutas cristalizadas e uvas passas e tem forma cilíndrica, enquanto o pandoro é liso, sem fruta, e aposta tudo na manteiga e na baunilha. Quem não gosta de fruta no doce de Natal quase sempre é do time do pandoro.

Há ainda o nadalin, o ancestral veronês, que sobrevive como doce regional: mais baixo, mais denso, com a cobertura de açúcar e amêndoas que Melegatti tinha tirado. Vale provar os dois lado a lado para entender o que mudou em 1894.

Onde se erra

O erro que arruína o pandoro caseiro é começar com um lievito madre fraco. Se a sua massa mãe não triplica sozinha em poucas horas, ela não vai levantar quilos de manteiga e gema: o pandoro sai baixo e pesado. Fortaleça o fermento por dias antes de tentar.

O segundo erro é a temperatura da massa. Acima de 26 °C a manteiga derrete, a emulsão desanda e o miolo fica com aspecto de sabão em vez de fios. Trabalhe em cozinha fresca, gele a tigela e pare de sovar se a massa esquentar.

O terceiro é a pressa na última fermentação. Ela leva mesmo oito a dez horas, e cortar esse tempo deixa o pandoro denso. E, ao sair do forno, esfrie de cabeça para baixo dentro da forma: um pandoro quente, apoiado sobre a base, murcha com o próprio peso.

Perguntas frequentes

Preciso mesmo de lievito madre, ou posso usar fermento de padeiro?
O pandoro clássico é de lievito madre, e é dele que vêm o perfume e a maciez que duram dias. Dá para fazer uma versão com fermento biológico e um pré-fermento longo, mais rápida e mais fácil, mas o resultado é outro doce: gostoso, porém sem aquela alma dos grandi lievitati.
Dá para fazer sem a forma de estrela?
Dá, em qualquer forma alta, tipo panetone ou até uma de bolo com furo, mas você perde a assinatura. A estrela de oito pontas não é só bonita: as pontas ajudam a assar por igual uma massa muito rica. Sem ela, vigie mais o centro para não deixar cru.
Por que o meu miolo saiu de bolo, e não em fios?
Faltou sfogliatura ou a manteiga derreteu. Os fios vêm das camadas de manteiga laminada; se a gordura vira uma massa só com o resto, o miolo fica de bolo comum. Mantenha tudo frio na hora de laminar e não pule as dobras.
Quanto tempo o pandoro dura?
Bem embrulhado, uma semana ou mais, e por isso a indústria o vende em caixa pelo Natal inteiro. O lievito madre é conservante natural: a acidez branda segura o ressecamento. Guarde em saco fechado, longe do calor, e nunca na geladeira, que resseca.

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