Farinha
Farinha de trigo sarraceno: o que é, para que serve e a galette que ela faz
Ela não é trigo nem cereal: é a semente de uma planta parente do ruibarbo, e não tem glúten. Nenhuma massa feita só com ela cresce de verdade, e é por isso que ela faz o que farinha nenhuma faz.

De relance
- Força (W)
- não aferido
- Proteína
- de 12% a 12.6%
- Absorção de água
- não aferido
- Estabilidade
- não aferido
- Cinzas
- não aferido
- Origem
- Ásia oriental; na Europa desde o século XIV, documentado na Bretanha desde 1497
- Grão
- não é cereal nem trigo: semente de Fagopyrum esculentum, da família do ruibarbo
Como se chama em cada país
| País | Como se chama |
|---|---|
| English | buckwheat flour: light (sifted) ou dark (whole groat) |
| Português | farinha de trigo sarraceno ou trigo mourisco |
| Italiano | farina di grano saraceno (integrale para pizzoccheri e polenta taragna) |
| Français | farine de sarrasin ou blé noir (IGP Farine de blé noir de Bretagne, registrada na UE em 2010) |
| Español | harina de trigo sarraceno o alforfón |
Para que serve
Massa líquida é o território dela. Galette, crepe salgado, panqueca, blini: tudo que se espalha fino na chapa e não depende de crescer. Camada fina não cobra a falta de glúten, e sobra o sabor tostado, entre a avelã e a terra, que farinha de arroz não dá.
Na mistura de pão sem glúten ela é a peça de sabor. Arroz e polvilho dão estrutura e um pão pálido; de 15% a 25% de sarraceno mudam a cor e tiram o gosto de nada. É o motivo mais comum de o saco caro da loja de produto natural entrar na casa do brasileiro.
Num pão de trigo ela é tempero estrutural: 10% a 20% dão miolo escuro, casca rústica e um amargor que combina com fermento natural e queijo curado. Os 12% a 12,6% de proteína lembram os do trigo, mas é proteína que não forma rede: ajuda no sabor, não na sustentação.
Quando não usar
Pão alto feito só com ela, não. Sem glúten não há rede para segurar o gás, e o miolo sai denso, úmido no centro e esfarelento na faca. Com psyllium e uma fôrma sai um pão 100% sarraceno gostoso, mas não é o pão que você imaginou.
Também fica fora tudo que precisa esticar ou laminar: massa folhada, pizza aberta na mão, pão de fôrma fofo. E o sabor tem limite: é forte e cresce no forno. Acima de 30% num pão de trigo ele apaga o resto da receita, e em bolo claro ou biscoito fino o amargor da casca chega primeiro.
Como usar na prática
Comece pelo corte. De 10% a 20% sobre a farinha total ela aparece de graça: dá cor e sabor e o pão cresce igual. De 20% a 30% o miolo fecha um pouco e a massa perde elasticidade, o que uma dobra a mais resolve. Acima de 30%, pare de tratar como pão de trigo.
Ela bebe muito e continua bebendo. As fibras puxam água devagar, e a massa que parecia certa engrossa em vinte minutos: acerte a hidratação depois de 20 a 30 minutos de descanso, e resista a corrigir com farinha. E não procure força no saco: não existe W, absorção nem estabilidade aqui, porque não há glúten para o alveógrafo medir. É por isso que a tabela acima marca esses campos como não aferidos.
Na compra, duas coisas. A escura, moída com a casca, é mais amarga e perfumada; a clara, peneirada, é mais suave e dá massa mais leve. E leve pouco de cada vez: a semente é gordurosa e pega ranço rápido. Depois de aberta, geladeira.
A história
O nome mente duas vezes. Não é trigo e não é nem cereal: Fagopyrum esculentum é parente do ruibarbo, e o que se mói é a semente, não o grão de uma gramínea. O trigo do nome veio de quem viu aquela farinha escura chegar de fora: sarraceno e mourisco apontavam para o estrangeiro. O francês diz blé noir, trigo preto.
Ela vem do leste da Ásia e aparece na Europa no século XIV com a vantagem que decidiu a sua história: cresce em solo pobre e ácido, onde o trigo não vinga, e amadurece depressa. Virou base de cozinha de terra difícil, não de terra boa. A galette da Bretanha, onde está documentada desde 1497. Os pizzoccheri da Valtellina. O soba japonês.
E aqui está a parte que quase ninguém conta: a Bretanha, sinônimo mundial de sarraceno, hoje come muito sarraceno que não é bretão. A crêperie é local, a farinha muitas vezes não. Foi para separar as duas coisas que nasceu a IGP Farine de blé noir de Bretagne, reconhecida na França em 2008 e registrada pela União Europeia em 2010. O produto mais tradicional da região precisou de um selo europeu para provar que ainda era de lá.
Perguntas frequentes
- Farinha de trigo sarraceno tem glúten?
- Não tem. Apesar do trigo no nome, ela não é trigo nem parente dele: é semente de uma planta da família do ruibarbo, e não forma glúten na água. A ressalva é a contaminação cruzada, no moinho e na sua bancada: para quem tem doença celíaca, procure o selo de sem glúten no rótulo.
- Trigo sarraceno e trigo mourisco são a mesma coisa?
- São a mesma semente. No Brasil os dois nomes circulam lado a lado, e ainda aparece o francês blé noir em receita mal traduzida. Na loja de produto natural o rótulo costuma dizer trigo sarraceno.
- Dá para fazer pão só com farinha de trigo sarraceno?
- Dá para fazer um pão, não o pão que você tem na cabeça. Sem glúten a massa não segura o gás e o miolo sai denso e úmido. Com psyllium e uma fôrma fica bom e cheio de sabor. Para pão alto e leve, misture com farinha de arroz e um amido.
- Qual a diferença entre a farinha clara e a escura?
- A escura leva a casca do grão moída junto: mais amarga e muito mais perfumada. A clara é peneirada, mais suave, dá massa mais leve e perdoa mais numa receita doce. No Brasil o padrão de prateleira é a escura, então receita francesa sai mais forte que o original.